quinta-feira, 25 de junho de 2015

A Medicina Tradicional Chinesa
(por Gutembergue Cruz do Livramento*)

A Medicina Tradicional Chinesa (MTC), quanto ao seu aspecto milenar, é muito mais ampla do que está sendo utilizada no ocidente.  Apesar da Acupuntura ter tomado um grande vulto no ocidente, talvez por conta de ser mais fácil explicar alguns de seus efeitos pela neurofisiologia ocidental, a MTC desenvolvida na China, principalmente em alguns clãs e hospitais, utiliza-se muito mais da Farmacoterapia Chinesa, Dietética e a prática dos Exercícios Terapêuticos Chineses - Qi Gong (Chi Kung) e Tai Ji Quan (Tai Chi Chuan). Posteriormente, seguem a Acupuntura e o Tui Na (mobilizações e manipulações teciduais semelhantes à fisioterapia, usando o conhecimento médico chinês). Aqueles que querem aprender a MTC em sua essência devem ir mais além, pois precisam perceber e viver esta medicina e filosofia com maior plenitude, aplicando, antes de tudo, em sua própria vida e saúde, antecedendo qualquer prática, como supostos sabedores do tratar o outro com a MTC.

A acupuntura tem um resultado maravilhoso quando em mãos de profundos conhecedores da essência da MTC. Estudos livrescos, apesar de importantes, não são suficientes, pois devemos suar um pouco mais e aprender a mover e conhecer o nosso Qi (energia) ativamente através da prática de exercícios da medicina chinesa, meditação e alimentação saudável (de acordo a sua constituição). Com esta vivência poderemos oferecer e compartilhar uma melhor energia, assim como nos proteger melhor dos campos magnéticos que somos expostos até mesmo por aquele que tratamos. Deveremos estar mais saudáveis do que aqueles que nos procuram para tratamento, afinal de contas para a MTC somente técnica não funciona satisfatoriamente. Todo processo de tratamento é uma troca de Qi e, certamente, não é somente a erva ou a agulha que fará este processo. A energia emanada daqueles que tratamos faz parte do compêndio de possíveis causas de adoecimento do profissional de saúde.

O tratamento e a busca da saúde deverão se iniciar com a vontade e capacidade de se fazer mudanças estruturais (alimentação e exercícios corretos, forma de pensar e questões psíquicas, etc). Como dizem os chineses, enquanto a pedra for pedra ela sempre afunda e enquanto a bola for bola esta sempre emerge. Somos, por isso, semelhantes a uma fechadura que, enquanto tivermos aquela forma, sempre as mesmas chaves nos acessarão; sempre os mesmos estímulos nos adoecerão. Há uma parte de nós relacionada a nossa constituição, a qual não poderemos mudar, mas todo o resto sim, pois não são verdades e sim formação de crenças. A nossa constituição deverá ser conhecida para nos alimentarmos, exercitarmos e vivermos atentos as nossas forças e fraquezas, nos mantendo mais perto do equilíbrio. A prática da meditação diária também nos dará suporte importante nessa caminhada. As patologias vêm pela justaposição (Jie) de quatro fatores como: Alimentação, Constituição, Ambientais e Emocionais, respectivamente Gu, Zong, Liu Qi e Shen. Mude um destes fatores e comece a mudar a justaposição e o adoecimento. Mude grande parte destes de maneira focada e sustentada e dará um novo rumo a sua saúde no aspecto preventivo ou curativo. Deixe de acumular no interior as mesmas energias perversas inerentes (Fu Qi) e transforme a sua captação dos fatores ambientais de forma mais harmônica e, consequentemente, saudável. 

O Fu Qi se acumula nos tecidos conjuntivos, nos canais ou nos órgãos. É profundo por isto difícil de ser eliminado e frequentemente está nos conduzindo emocionalmente mesmo que para a destruição como hábitos de fumar, de se alimentar mal, de manter relações destruidoras da nossa saúde com o meio ambiente e com pessoas, etc. Se no seu interior há Fu Qi de Frio atrairá mais o Frio externo que outro qualquer fator acontecendo o mesmo para o Calor, Umidade, Secura e Vento. E isto mantém a tendência ao adoecimento. Por isso o que um dia matará aquele indivíduo (Fu Qi e tendência ao adoecimento) geralmente este já o carrega a muito tempo dentro de si. Por isso quando esfria ou se torna úmido o ambiente aquele indivíduo sempre coriza, aquele outro tem sempre cefaleia, aquele outro tem asma, e assim sucessivamente com seus sintomas em relação ao meio ambiente ou outro dos fatores da justaposição (Jie). 

Mude seus hábitos e atitudes físicas e mentais e mude o seu Fu Qi, em consequência sua saúde. Tomar remédios e drogas químicas se trata a doença em seu aspecto da manifestação mas nunca o Fu Qi, por isso é um método ineficaz para se obter Saúde e sim, manterá os indivíduos doente presos a remédios favorecendo o sistema capitalista da manutenção da Doença e enriquecimento das indústrias de remédios. A prova é que, apesar de vivermos mais, o mundo nunca esteve tão doente. O medicamento alopático tem o foco de não deixar o indivíduo morrer, mas, nunca eliminar a doença. Toda a pesquisa é baseada principalmente em manter o indivíduo vivo, mas dependente o máximo das drogas, a exceção acontece em algumas vacinas. Mesmo assim hoje uma criança com este excesso de vacinas inocula mais de 50 fatores patogênicos com menos de 2 anos de vida, sendo que algumas deles favorecerão  adoecimentos futuros criando Fu Qi no organismo. Até vacinas devem ser usadas com prudência.

A grande pergunta a ser feita é: Quem é este indivíduo que apresenta esta patologia?  e não Que patologia tem este indivíduo? Desta maneira, o foco do tratamento estará no Ser humano e não no diagnóstico patológico, pois diversos indivíduos com o mesmo diagnóstico deverão ser tratados levando em conta a sua constituição individual e estrutura, visto que aquela patologia "habita" um ser diferente dos outros. As diversas terapêuticas são eficazes a partir do momento que oferecem condições de cada indivíduo se tornar um agente ativo em seu próprio processo de cura, investindo e trabalhando sua estrutura. Os tratamentos passivos, apesar do grande valor ao serem utilizados no momento correto, contribuem em menor intensidade para a cura profunda, tendendo tratar, tão somente, as manifestações e não as raízes da desorganização. Mesmos fatores podem provocar diferentes patologias em diferentes indivíduos assim como diversos fatores patogênicos podem provocar mesmas patologias em diferentes indivíduos. Não há patologias incuráveis mas há indivíduos incuráveis. As vezes alguns morrem de gripe enquanto outros sobrevivem ao câncer. São apenas manifestações diferentes em pessoas diferentes. Os indivíduos são diferentes e por isso o profissional de saúde deve identifica-lo e oferecer o melhor para aquela individualidade mesmo que ofereça algum protocolo para determinadas doenças.
Desta maneira, passamos a nos questionar: estamos preparados para investir nossos esforços e estudos no aprofundamento de práticas que possibilitem tratar o indivíduo sob a óptica de devolver para o organismo a capacidade intrínseca a este como indivíduo de se manter saudável ou continuaremos tratar doenças esquecendo-se dos doentes? Medicalizando todos os sintomas e sinais. Ou nos daremos por satisfeitos avaliando cada um a nossa frente, prescrevendo tão somente algo em forma de drogas que o retire momentaneamente da crise, mantendo o ar de grande sabedores da condição da saúde alheia? Adoecendo as pessoas a longo prazo na maioria das vezes. Se nós não investirmos na mudança verdadeira, iniciando por nós mesmos, como os paradigmas mudarão?
As medicinas tradicionais antigas (como a Chinesa e Indiana) têm o grande mérito de valorizar a percepção do outro e de si mesmo com um olhar profundo e conectado com os ritmos cósmicos e telúricos, pois em tempos remotos não havia tecnologia para perceber o estado do metabolismo celular do individuo. Os médicos detentores desta sensibilidade especial eram capazes de entender que tudo se alterava de acordo com estes ritmos: a harmonia destes princípios entre o meio interior e o exterior, frente e dorso, baixo e alto, direita e esquerda, entre o YIN e o YANG. O tratamento se baseava, visto isso, em regular os ritmos e vibrações através das diversas terapêuticas, fossem elas à base de medicamentos herbais e alimentos, estímulos de agulhas, ventosas, água, calor ou frio, assim como os exercícios físicos e psíquicos que envolviam não somente as condições músculos-esqueléticas como também as condições energéticas, psíquicas e espirituais.
Precisamos reaver estes métodos incorporando-os a todos os conhecimentos modernos, fazendo uso de uma capacidade verdadeira de oferecermos para nós mesmos e para outros os caminhos da cura. Que seja sempre lembrado: A SAÚDE PASSA PELA CAPACIDADE DE CRIARMOS E RECRIARMOS AMBIENTES FAVORÁVEIS. Atualmente, profissionais de saúde interferem na patologia instalada e sequer têm meios para perceber ou educar os ritmos e vibrações inadequadas presentes no indivíduo. O pensamento ainda é aquele que, enquanto não for apresentada alguma evidência palpável o indivíduo não terá diagnóstico e por isso não estará tecnicamente doente. O objetivo não é tratar somente a patologia, mas sim favorecer os caminhos de cura do ser, pois a maioria das patologias nasce do desequilíbrio entre as energias do indivíduo em relação à energia cósmica, relacionado ao fluxo, quantidade e qualidade. Enquanto não se perceber isto, os tratamentos serão paliativos e muitas doenças incuráveis.
Os paradigmas não existem por si só: nós os criamos e os mantemos.
Que possamos honrar tanto a Medicina Chinesa quantos as outras medicinas tradicionais em suas verdadeiras essências, não as utilizando parcialmente, como mais uma aspirina. Isto seria reduzir um gigante à quase nada. Inicie a mudança por você mesmo e verá uma grande diferença.


Gutembergue Livramento

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cursos Qigong e Fitoterapia IBRAPEQ 2015

                                      
 Tui Na 推拿

O TUI NA é uma ciência médica chinesa, considerada uma terapêutica externa da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que estuda as aplicações e princípios clínicos da massagem para prevenir e tratar doenças pela utilização de vários tipos de terapias manuais e alguns movimentos específicos dos membros na superfície do corpo. 
Teve grande desenvolvimento durante a dinastia Yin, há mais de três mil anos, quando foi a principal forma terapêutica utilizada pelo povo chinês nesta época. Com o desenvolvimento da Medicina Tradicional Chinesa ao longo destes milênios assim como toda a ciência moderna transformou o Tui Na em uma das principais terapêuticas da MTC emprestando grande desenvolvimento na pesquisa, prevenção e tratamento de diversas doenças na China e, cada vez mais, pela expansão do conhecimento, em toda população mundial.
Apesar do grande potencial terapêutico do Tui Na ainda é praticamente desconhecido no ocidente em suas características mais essenciais sendo ainda veiculado de forma insipiente e superficial pela maioria dos praticantes perdendo o significado clínico em sua utilização. É importante procurar Escolas e professores de referência para seu verdadeiro e profundo estudo. O Tui Na é considerado pela MTC como um sistema Fisioterapêutico completo se utilizando de toda a base da milenar arte médica chinesa assim como todo o estudo da ciência moderna. 
Juntamente com a Acupuntura o Tui Na é considerado terapêutica externa da MTC assim como a Farmacologia Chinesa é uma terapêutica interna e o Qi Gong tanto uma terapêutica interna como externa sendo estes, sem exceção, os pilares daqueles que querem aprender a Medicina Tradicional Chinesa de forma profunda e completa.
Hoje em dia o Tui Na e o Qi Gong são vistos por especialistas médicos chineses como grandes terapêuticas em expansão para o ensino de profissionais de Saúde em todo o mundo por serem artes médicas naturais onde não se necessita de nenhuma ferramenta especial somente o profundo conhecimento. A ligação entre as medicinas ocidental e chinesa foi a Acupuntura a partir dos anos 1970 e agora, no século XXI, segundo estes especialistas, serão o Qi Gong e Tui na.  
Estimulado por Universidades chinesas (ShangHai, Beijing, GuangDong, NanJing e TianJin) profissionais de saúde em todo o mundo têm se dedicado ao aperfeiçoamento da Medicina Chinesa em centros apoiados por especialistas. Este estudo deve se iniciar pelo entendimento profundo da geral teoria médica chinesa até o enfoque específico da terapêutica utilizada sem abandonar, no entanto, o conhecimento da ciência moderna. É necessário querer desenvolver novas habilidades físicas, intelectuais e psíquicas e modificar paradigmas importantes na compreensão da saúde humana inclusa em um universo energético sob a luz da ciência biomagnética.  
Convido a todos para este mundo fascinante da MTC especificamente agora para o estudo do TUI NA que além de modificações importantes na saúde daqueles que serão tratados certamente modificará a saúde física e mental do estudante/praticante desta eficiente e apaixonante arte terapêutica chinesa. Nada é mais significativo que ser profundamente modificado pela Arte que pratica.

A Medicina Tradicional Chinesa hoje ocupa um grande espaço no cenário das Ciências mesmo que com sua história evolutiva de cerca de 5.000 anos é mais atual que nunca. Combina a experiência médica clínica de milênios com os mais novos conhecimentos científicos atuais. A China soube fazer esta ponte como nenhum outro centro no mundo. Enquanto muitos discutem qual o melhor método entre a ciência energética antiga e a celular/molecular atual a China há décadas já se move a passos largos na utilização de ambos os conceitos preparando seus profissionais de Saúde desta forma. Tal medicina parte do pressuposto que as leis energéticas que regem a força da Natureza, estudadas no Taoísmo, também regem a fisiologia humana e por isso foca no tratamento energético se utilizando da Farmacologia Chinesa, Dietética, Acupuntura, Tui Na e Qi Gong (Exercícios Terapêuticos Chineses) sem, no entanto descartar a ciência moderna, pelo contrário incorporando-a. As novas ciências como a Física Quântica assim como os avanços da Biologia Celular e Molecular trazem subsídios significativos que avançaram na compreensão do conhecimento da Medicina Milenar Chinesa. Sabe-se hoje que a nova Medicina deve investir na percepção estrutural do Ser. Não se obtém resultados significativos na verdadeira saúde quando simplesmente se medica com drogas o organismo, pois enquanto sua estrutura energética for a mesma a raiz da desorganização não foi tratada. Com isto o sintoma poderá melhorar, mas a desorganização deverá perdurar.
Cabe a continuação do texto levá-lo ao conhecimento inicial da arte do TUI NA sendo que para isto se faz necessário que possamos pensar de uma forma mais abrangente que somente manipulações, torções e mobilizações. Precisamos PENSAR.
“Desse modo, a tarefa não consiste tanto em ver o que ninguém até hoje viu, mas, em pensar o que ninguém até agora pensou sobre aquilo que todos vêem” cito Arthur Schopenhauer.
A ciência deste século XXI tem um grande desafio em suas mãos: a busca de uma compreensão maior da realidade em que vivemos, pelo simples fato de não nos satisfazermos mais somente com uma melhor tecnologia, seja esta genética, física, cibernética, da astronomia ou social. Mais do que nunca, sentimos a necessidade de buscar novos níveis de consciência, para percebermos o incrível potencial e o propósito da vida, sendo que para isto precisemos nos desancorar do fragmentário, do mecânico e do pensamento linear de Darwin, Descartes e Newton, sem, no entanto descartá-los. 
Concordo com Helen Keller quando diz que “A heresia de uma Era torna-se a ortodoxia da Era seguinte”.

TUI NA

推 TUI significa empurrar, mobilizar e NA significa pegar, agarrar. Traduz-se Tui Na como massagem chinesa.
O TUI NÁ chinês é uma das matérias médicas abrangidas pelas teorias da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), na qual, manipulações são usadas para estimular os pontos ou outras partes da superfície do corpo para corrigir o desequilíbrio fisiológico do mesmo e alcançar efeitos curativos. É uma parte importante da MTC. Na China antiga, a terapia era classificada em: medicina interna e externa; o Tui Na está incluído na segunda.
O Tui Na pode ser usado para tratar várias disfunções, entre as quais, não somente as várias lesões dos tecidos moles como também muitos outros tipos de doenças, na cirurgia, ginecologia, os cinco órgãos do sentido, pediatria etc. É especialmente satisfatório para pacientes infantis e idosos. No presente, entretanto, o Tui Na está dividido em vários ramos, tais como: adulto, infantil, ortopedia e traumatologia, cosmetologia, prevenção da saúde, reabilitação, medicina esportiva e assim por diante.
Falando concretamente, o Tui Na no adulto é tradicionalmente usado para tratar espondilopatia cervical, estiramento lombar, prolapso do disco intervertebral lombar, estiramento lombar agudo, artrite reumatóide, epigastralgia, gastroptose, constipação, hipertensão e seqüelas da apoplexia. O tratamento de diabetes, com o Tui Na no adulto, há muito tem sido reportado. Se a colite alérgica e a úlcera duodenal bulbar forem tratadas com o Tui Na no adulto, a cura será atingida mais rapidamente. Nos anos recentes, o tratamento da insuficiência coronariana crônica e angina pectoris, com o Tui Na no adulto, foi notavelmente desenvolvido, também. Desde 1982, pesquisadores dedicaram seus esforços na pesquisa e tratamento das doenças acima descritas e verificaram que no eletrocardiograma dos pacientes tratados, as funções cardíacas e os sintomas subjetivos haviam melhorado muito. Do mesmo modo, o Tui Na infantil apresenta efeitos satisfatórios quando usado para tratar distúrbios do sistema digestivo, como: diarréia, vômito, dor abdominal e obstrução intestinal; apresenta notáveis efeitos quando aplicado no tratamento de deficiência de Vitamina D, distrofia, anorexia, sarampo, tosse, desinteria bacteriana, infecção no trato respiratório superior, bronquite asmática, anemia e febre. Além disso, desempenha um papel evidente em aumentar a imunidade infantil. Depois de tratados com o Tui Na infantil, crianças suscetíveis ao resfriado comum devido à baixa função imunológica, podem se manter afastadas do mesmo por um longo tempo.
O Tui Na tem o efeito de dupla direção na regulação da função corporal. Por exemplo, o Tui Na aplicado nos pontos correspondentes no abdômen e nas costas ou nos membros superiores dos pacientes com hiperistalse ou hipoperistalse, pode aumentar ou diminuir a peristalse anormal, fazendo-a retornar ao estado normal. A função fisiológica anormal do corpo é geralmente devido a doenças causadas por bactérias, vírus, protozoário ou fatores físicos e químicos. Os medicamentos podem ser usados para conter o crescimento da bactéria e vírus, ou eliminá-los. Mas isto não assegura que a função fisiológica anormal será naturalmente corrigida. É por isso que a cura é mais demorada quando alguma doença for tratada somente com medicamentos. Neste caso, se o Tui Na for acrescentado, a cura virá mais cedo. As teorias da Medicina Tradicional Chinesa acreditam que o Tui Na aja nos pontos, canais e colaterais, ao longo do corpo, regulando o funcionamento dos órgãos internos. Isto é, o Tui Na pode desobstruir os canais e colaterais, promovendo a circulação sangüínea e regulando o Yin e o Yang, para que a função do corpo volte ao normal.
Pesquisas modernas provam que o Tui Na melhora a microcirculação do sangue e do sistema linfático, que traz recuperação mais rápida para várias lesões dos tecidos moles, tais como deslocamento e contusão. Além disso, porque o sistema Nervoso, controlando a microcirculação dos órgãos internos, se conecta com a pele. O Tui Na, aplicado em pontos certos sobre a superfície do corpo, pode regular, também, a microcirculação dos órgãos internos, que ajusta o funcionamento dos mesmos. É por isso que o TUI NA, podendo exercer efeito no Sistema Nervoso Central, pode ser usado para provocar anestesia, para baixar a febre nas crianças, ajustando a temperatura do corpo e para tratar a hipertensão e a neurose. Altas dosagens de medicamentos químicos, quando usados por muito tempo, pode resultar em resistência à droga e os efeitos colaterais de algumas drogas produzirão sérias seqüelas. Porém, o Tui Na não só não produz efeitos colaterais, como pode aumentar a imunidade do corpo, ajustando as funções do mesmo. Por isso, o Tui Na é barato, altamente eficaz, benéfico, um remédio ideal e sem efeitos colaterais.
No presente momento, muitas coisas podem ser feitas no campo do Tui na. Primeiro, o mecanismo do Tui na precisa ser investigado à luz das modernas teorias médicas. Segundo, o Tui Na deve ser usado para tratamento de mais doenças em práticas clínicas, para alargar o alcance de suas indicações. Terceiro, o Tui Na deveria ser expandido para o resto do mundo, para que todas as pessoas possam apreciar o que esse tratamento médico significa. Finalmente, mais instrumentos usados para tratamento, experimentos, pesquisas científicas e o ensino do Tui Na deveriam ser desenvolvidos.
O Tui Na pode ser usado não somente para tratar doenças, mas para proteger a saúde e desenvolver o corpo, na prevenção primária ou secundária, de forma que uma doença possa ser evitada ou possa ser contida no seu início. Em seu livro, "Jin Yao Lue", Zhang Zhonggjing, um famoso médico da Dinastia Han (206 AC - 220 DC), assinalou: "Assim que uma sensação de peso é sentida nos membros, -Daoyin, Tuna, Zhenjiu e Gaomo-(massagens aplicadas por meio de ungüentos), todos os quais são métodos terapêuticos, são executados com a finalidade de prevenir a obstrução dos nove orifícios, repelindo a doença no seu início". Isto mostra que o Tui Na (de autoterapia), era extensamente usado naquele tempo como meio de prevenir doenças e proteger a saúde. Nossos antepassados mantinham o fluxo de Qi fluindo livremente, fortalecendo os tendões e ossos e livrando-se da fadiga e inquietude por praticar a autoterapia, com finalidade de prevenir as doenças e prolongar a vida. Uma das essências da ciência de prevenção e cura na Medicina Tradicional Chinesa é: prevenção vem primeiro e tratamento depois, o que foi explanado anteriormente. Os frutos da moderna medicina para idosos e medicina esportiva, sugerem que necessária condição do estado mental dos idosos perante às doenças, deve ser encontrada; por isso o Tui Na preventivo deve ser desenvolvido o mais cedo possível, com métodos satisfatórios para os idosos, por exemplo.

INDICAÇÕES E CONTRA-INDICAÇÕES PARA O USO DO TUI NA
* INDICAÇÕES

A indicação para a utilização do Tui Na tem se tornado gradativamente crescente com o desenvolvimento rápido da especialidade terapêutica. Há indicações em todos os departamentos de traumatologia, medicina interna, cirurgia, ginecologia e órgãos dos cinco sentidos.
1. Distúrbios devidos a Traumas.
Distensão e contusões diversas, subluxações de juntas, torcicolo, espondilopatia cervical, estiramento lombar agudo, prolapso do disco intervertebral lombar, semideslocação da junta sacro-ilíaca, síndrome de distúrbio articular posterior das vértebras lombares, estiramento músculo-lombar crônico, osteoartropatia retrógrada das vértebras lombares, lesão dos nervos glúteos superiores, síndrome do terceiro processo transverso vertebral lombar, periartrite úmeroescapular, bursite subacromial, epicondilite umeral externa, tendinite do músculo supraespinhoso, tenossinovite estenosante, lesão dos meniscos, estiramento da junta do punho, ciática, lesão do escudo esternocostal, distúrbio da junta costovertebral, lesão do ligamento colateral da junta do joelho, estiramento da junta do tornozelo, distúrbios da junta temporomandibular (ATM), entorse, pé chato e tensão do pé, contratura, deslocamento do tendão do bíceps braquial, tenossinovite do bíceps braquial, tendinite do músculo supraespinhal, bursite subacromial, síndrome do túnel do carpo, síndrome do túnel do tarso, espondilite reumatóide, laceração de músculo, amolecimento da patela, lesão de feixe nervoso periférico, contratura.
2. Síndromes da Medicina.
Epigastralgia, gastroptose, úlcera gastroduodenal, dor de cabeça, insônia, asma, enfisema pulmonar, colecistite, hipertensão, angina pectoris, distúrbio coronariano, diarréia, constipação, paralisia facial, nervosismo, neurose gastrintestinal, opilação, resfriado comum, diabetes, impotência, miopia, disrafismo da glote, hemiplegia, paraplegia, faringite, gastrenterite aguda, úlcera péptica, paraplegia, paralisia parcial, tromboangiíte obliterante.
3. Doenças da Cirurgia.
Mastite aguda no estágio inicial, úlcera de decúbito (escara), aderência intestinal pós-operatória, obstrução intestinal paralítica pós-operatória (perturbação da função peristáltica intestinal).
4. Doenças da Ginecologia.
Dismenorréia, anemia, menstruação irregular, inflamação pélvica e separação puerperal da sínfise pubiana.

* CONTRA-INDICAÇÕES

As contra-indicações não absolutas na terapia pelo Tui Na. Para algumas doenças, a terapia pode ser usada como medicina auxiliar para aumentar o efeito curativo e eliminar sintomas. Na prática clínica, deve-se prestar atenção ao seguinte:
1. Geralmente falando, não é recomendável tratar paciente com câncer.
2. Não tratar doenças transmissíveis, agudas ou crônicas, tal como a hepatite.
3. Doenças infecciosas, como erisipela, artrite supurativa e "medullitis".
4. Doenças hemorrágicas diversas, tais como: úlcera gástrica no período de sangramento, hematúria e hematoquézia.
5. Tumores malignos, tuberculose e piemia.
6. Queimadura e dermatite ulcerativa.
7. Sangramento proveniente de trauma.

CUIDADOS ESPECIAIS

1. Pacientes portadoras de osteoporose; neste caso não usar pressão e rotação. Deve ser usada a manipulação de rolamento (Gun Fa), pressão digital dos pontos, massagem e outros procedimentos leves.
2. Região sacrolombar e abdominal da mulher em período menstrual ou gravidez. Não manipular aqueles pontos que possam induzir à interrupção da gravidez nos primeiros três meses.

Parte do Texto sobre indicações e contra-indicações da utilização do TUI NA escrito segundo as obras abaixo:
**THE ENGLISH-CHINESE ENCYCLOPEDIA OF PRACTICAL TRADITIONAL CHINESE MEDICINE - TUI NA THERAPEUTICS- SHANDONG UNIVERSITY OF TRADITIONAL CHINESE MEDICINE.
**CHINESE MASSAGE – TUI NA. PUBLISHING HOUSE OF SHANGHAI COLLEGE OF TRADICIONAL CHINESE MEDICINE.

Dr. Gutembergue Livramento
*Mestrado em Medicina e Saúde Humana (Escola Bahiana de Medicina)
*Máster em Acupuntura Bioenergética e Moxabustão (Universidade de Yunnan de MTC)

*Diretor do IBRAPEQ (Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa em Qigong e Medicina chinesa)
CERTEZAS e POSSIBILIDADES
Gutembergue Livramento

Se as “certezas” do mundo e até mesmo as de cada pessoa mudam ao longo do tempo, e assim acontece, isto significa que devemos dar outro significado a estas. As “certezas” geram falsa segurança ou até mesmo leveza de consciência para alguns atos, mesmo que atrozes, quando a maioria tem a mesma concepção da realidade. Quantos já foram queimados em fogueiras ou assassinado de diversas formas somente porque viam o mundo sob outra perspectiva? As certezas distanciam frequentemente as pessoas da Verdade. Os julgamentos em qualquer instância somente acontecem quando se vai de encontro às certezas daquele momento ou cultura. Como dizia uma pensadora: “A heresia de uma era torna-se a ortodoxia de uma era seguinte”. Mas muitos até foram sacrificados por esta “heresia” e geralmente quando lutaram contra o Estado ou Religiões, para atenuar a dor e sacrilégio, são tidos como heróis no futuro cultuados pelo mesmo Estado ou Religião. Em suma, o que parece somente uma ignorância é geralmente uma concepção criada para imobilizar aqueles que porventura saem da linearidade imposta por manipuladores.

Como viver em uma realidade onde não há certezas e sim possibilidades? Como diz o adágio milenar chinês: “Nada existe, tudo está se tornando”.
Isto apesar do desespero da incerteza sentida por alguns traz o poder construtivo próprio de cada consciência pra nortear os resultados e manifestações da realidade da vida. Muitos preferem algo ruim, mas certo, do que as diversas possibilidades apesar de que dentre estas está a cura ou a felicidade. Muitos repetem nos consultórios médicos: “prefiro a certeza de um mau diagnóstico do que a incerteza de não saber o que tenho depois de tantos exames”. As possibilidades da existência nos colocam o processo construtivo e criador sob o foco da consciência de cada um. O observador muda ou perpetua a realidade a cada momento que interage com esta. Precisamos tomar consciência deste poder.

Ao longo de uma vida perdemos todos os átomos do nosso corpo e os renovamos por novos diversas vezes por troca com o meio ambiente, mas o porquê de um indivíduo mudar todos os seus átomos e receber novos este continua doente ou muitas vezes, mais doente que antes? As realidades manifestas são expressões de uma “Fôrma vibracional” que enquanto for a mesma nada muda mesmo que suas unidades formadoras mudem. Enquanto as certezas se mantiverem as Fôrmas também.

A inconstância de todas as coisas é o nosso maior trunfo desde que possamos realmente nos ater disto. Por isso não haverá apegos e medos nem muito menos certezas. O Universo não gera certezas e sim, POSSIBILIDADES. Quando isto for compreendido profundamente não haverá espaços para a doença, que é uma permanência de um estado moribundo até a morte nem o medo das certezas criadas pela mente, pois estas nunca existiram mas poderão ser criadas. Por isso poderão ser recriadas e todos nós temos novas oportunidades de fazer tudo diferente mesmo que comecemos agora.

Agora é o momento de construção e de desconstrução mais importante pois o ontem já se pulverizou e nunca acordaremos amanhã, sempre que acordamos é Hoje, AGORA. O resto é criação da sua própria mente onde se agregam impressões, conhecimentos prévios, sentimentos e Luz (que é a base da construção de toda "realidade") mesmo que esta realidade não seja benéfica para você. Enquanto estivermos neste plano de existência a "realidade" sempre será criada por você ou pelo mundo.

Se a "realidade" pode ser criada e recriada que aprendamos a fazê-la de forma favorável a nossa saúde e bem estar desde que esta "realidade" seja "ecológica", quer dizer, não interfira de forma negativa na vida dos outros nem na natureza de forma destrutiva. A mente cria a realidade e também todos os argumentos convincentes para que se acredite nesta criação como se fosse a única realidade dentre as possibilidades.
 
Podemos passar uma existência inteira sem usufruir das mais incríveis potencialidades da vida por estarmos aprisionados em uma "realidade" que na verdade nunca existiu. Como o elefante gigante que fica preso amarrado até mesmo numa cadeirinha somente porque quando muito pequeno foi amarrado a árvores imensas e passou a ver tudo como uma grande árvore que o impedirá de se mover para onde quer que seja.

Os governos, as religiões, as entidades de controle estão cheios de artífices para que todos possam crer em realidades que nunca existiram. Como exemplo quando no século XVI a concepção de Deus foi retirada da Natureza (onde estava até então) para poder lesar a Natureza a bel prazer do homem, as ordens religiosas da época, em parceria com o Estado, retirou Deus da Natureza e o colocou no "céu", tanto que quando alguém quer falar com Deus olha sempre para o céu. Mas Deus não está em todo lugar por que só no "céu"?
Criação de "realidades" e manipulação de ideias que passam a ser corrente na vida de todos e ninguém questiona, pois se coloca um “observador” e “punidor” que a tudo ver, onipresente e onipotente, a seu lado para que todos tenham medo até mesmo de pensar diferente e criticar o óbvio das criações das religiões e governos ao redor do mundo que têm interesses bem claros de manipular a realidade trazendo ideias obscuras para a realidade presente.

Observe que se tudo fosse verdade mesmo não seria diferente em séculos diferentes nem em povos diferentes em momentos diferentes. Se fosse verdade, apenas seria. Acredita-se fortemente hoje em algo, e até vidas são tiradas por isso, mudando logo adiante quando não for mais interessante para aqueles que manipulam o senso comum. Há um aprisionamento na realidade criada que é mantida com agrados às mentes ilusionadas. As pessoas se sentem “seguras” quando acreditam em certas coisas mesmo que estas nunca tenham sido verdades. Ninguém nunca provou que o Universo é somente linear em sua forma de construir-se, mas a maioria se sente confortável em adotar esta possibilidade. Cria-se a idéia de que é melhor viver ao acaso ou por conta de um destino pré-estabelecido e rígido que perceber as forças que criam todas as realidades e ser ativo na construção das possibilidades, pois estas possibilidades não se pode dizer que uma delas aconteceu e se tornou realidade por acaso ou por obra do destino. Se há possibilidades há escolhas.  .
Crie você e recrie todos os estados, pois há apenas, e tudo isso, Possibilidades. A Luz é a base da construção da matéria e esta é emanada a partir do "Coração", da consciência, a partir da imaginação e intensidade da Energia do "Fígado", da vontade inabalável do "Baço" e "Rim", da persistência e força do "Pulmão" e do amor e paz (QUIETUDE) novamente do "Coração" segundo filosofias orientais antigas. Estes órgãos são vibracionais e não somente uma expressão material com funções bioquímicas. A capacidade de meditar profundamente nos faz acessar a estas forças transformadoras. Meditar é estar atento e vigilante criando a quietude interna onde há todas as respostas e guardado o verdadeiro amor divino. Procurar “fora” nos afasta do domínio e percepção das possibilidades.

Quando os "órgãos" energéticos se enfraquecem, assim como o Qi e Sangue, perdemos a capacidade de transformar e transmutar adequadamente a "realidade" imposta pela mente do "mundo" e de outras pessoas (muitas vezes doentios). Quando há Qi e Sangue adequado em órgãos saudáveis criamos ambientes saudáveis internamente e externamente e nos mantermos em harmonia. A Mente e o Corpo nunca estiveram e nunca estarão afastados e isolados. São a mesma faceta de uma única realidade. Por isso práticas meditativas, alimentação adequada, exercícios adequados respiratórios, buscar os tesouros espirituais em nós armazenados nos centros sutis de energia, tudo isto está na base da criação da força necessária para criarmos e recriarmos a "realidade" em ambientes saudáveis. Somente a Quietude do coração/mente pode abrir esta possibilidade. Invista nisto e mude qualquer “realidade”.

Gutembergue Livramento
*Mestre em Medicina e Saúde Humana pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Fisiologista e Pesquisador em Medicina e Saúde Humana.
*Mestre em Acupuntura Bioenergética e Moxabustão e Mestrando em Fitoterapia Clínica Chinesa pela Yunnan University of Traditional Chinese Medicine, Kunming, China em parceria com a Fundação Europeia de Medicina Tradicional Chinesa, Centro de Enseñanza de la Medicina China e IBRAPEQ.
*Professor Universitário em disciplinas de Fisiologia e Anatomia Humana, Fisiologia do exercício, Biofísica, Fitoterapia e Medicina Chinesa. Graduação e pós-graduação.
*Especialista em Medicina Chinesa Clássica e moderna (Brasil/Europa/China), Acupuntura e Eletroacupuntura, Fisiologia do exercício (UGF), Fitoterapia (UFBA), Somam-se as Graduações em Fisioterapia (Escola Bahiana de medicina) e Engenharia (UCSal).  
*Mestre em Kung Fu, Taiji Quan, Bagua Zhang, Xing yi Quan, Tongbei Quan  e Qigong Membro do Instituto de Shenzhen, província Guangdong, China.
*Presidente/fundador do IBRAPEQ (Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa em Qigong e Medicina Chinesa). www.ibrapeq.com.br e www.gutemberguemtc.blogspot.com.br

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domingo, 3 de novembro de 2013

PRATICAR QIGONG

A prática do Qigong está cada vez mais próxima do cotidiano e conhecimento da população graças a um trabalho contínuo de verdadeiros praticantes e pesquisadores desta nobre arte. O Real objetivo é fazer com que este conhecimento chegue àqueles que necessitam dele. Para isto precisamos dos verdadeiros praticantes capazes de passar este conhecimento com verdade e profundidade adequada para atingir a sua máxima eficácia sem se perder em mãos daqueles que usam estes conhecimentos e associações como política para beneficiar pequenos grupos de pessoas. Tudo que cresce e expande passa por este risco. 
Precisamos inicialmente sermos tocados e transformados pela prática para isto levamos anos de estudos e práticas pois não é um conhecimento intelectual apenas, subentende-se um conhecimento de profunda sensibilidade para sua compreensão o que somente é possível com a prática diária e, se possível, guiado por mestres competentes por longo período e não apenas por cursos que duram um fim de semana ou conhecimentos livrescos. Ter contato com a arte não significa ter aprendido esta. Para ensinar é preciso ter aprendido. A banalização do conhecimento é o primeiro e mais grave sintoma que a essência poderá ser perdida. Sem essência qualquer arte deixa de ser arte e passa ser apenas uma "caricatura" de si mesmo. Apenas uma casca. 
Para se perceber a transitoriedade da vida assim como sua transformação/transmutação contínua, para viver de forma plena e construtiva, se faz necessário perceber o movimento dentro da estaticidade assim como a estaticidade dentro do movimento. O Qigong em sua essência é uma grande ferramenta para esta vivência contribuindo de maneira eficaz para o desenvolvimento humano desde suas capacidades físicas até aquelas psíquicas e espirituais. Há de se ter estudos e práticas com assiduidade, refinamento e persistência para que ao longo dos anos possa se desenvolver estas capacidades sendo que muitas destas são intrínsecas ao próprio ser humano com sua matéria e sua experiência espiritual na Terra. É necessário buscar o conhecimento, pois, tão refinado saber não lhe cairá sobre seu colo. É necessário buscar os bons professores e mestres para que possam te ensinar e mostrar os caminhos, pois isto pode abreviar caminhos tortuosos e, caso não tenha este direcionamento, poderá até mesmo incapacitar a chegada ao objetivo esperado. Sem alguém como professor que traz consigo uma experiência de seus ancestrais um pretenso praticante pode passar anos ou vidas sem o caminho correto de desenvolvimento.
A persistência é outra grande barreira para a maior parte dos indivíduos, pois resultados duradouros e profundos podem levar algum tempo para acontecer e uma mente frágil e dispersa com as muitas cores e muitos barulhos da vida atual poderá se perder e desistir facilmente da caminhada. Diz meu mestre que se você não pratica por 01 dia você sabe. Se não pratica por 02 dias, então seu mestre sabe. Se não pratica por 03 dias, todo mundo sabe.
A busca e a prática se fortalecem na fomentação de seu próprio elixir interno (Nei Dan), substância capaz de construir o poder de geração e controle a partir do interior alimentando, fazendo fluir e conectando os 08 portões (Baixo-Alto, Interior-Exterior, Frente-Costas, Direito-Esquerda) através do fortalecimento do Qi original e 08 Vasos extraordinários/maravilhosos assim como a melhor estruturação da quantidade e qualidade das substâncias fundamentais (Jing - essências, Ying Qi - nutritivas, Wei Qi - defensivas, Xue – Sangue, Shen – psíquicas) gerando a capacidade de transformação e adaptação ao meio interno e externo a partir do pleno fluxo do Qi (Yun Qi) conhecido como Qi Correto (Zheng Qi). Não há excessos, não há deficiências.
A partir da compreensão das 04 fases do Qigong: desbloqueio do Qi, captação do Qi, Circulação do Qi e armazenamento do Qi, gera a capacidade mínima inicial para começar o aprendizado em trabalhar com o Qi (Qigong). Pode-se passar uma vida mal treinada e se fazer muitos movimentos até parecidos com o Qigong, mas se não houver princípios e fundamentos corretos não será um Qigong nem levará o praticante aos grandes resultados esperados. Quando diversas pesquisas hoje em dia mostram a eficácia do Qigong está se mostrando sobre práticas corretas e não qualquer prática. Quando a ciência dos antepassados falava sobre a capacidade dos mestres de Qigong são ainda mais apurados os métodos de treino. Em suma, praticar Qigong não é repetir movimentos, mas sim buscar sua essência transformadora.
Parabenizo a todos aqueles que se empenham pelo estudo e busca incessante no caminho de construir um bom Qigong. Que no futuro próximo toda a humanidade possa ser mais beneficiada com este conhecimento milenar de alto valor. Trabalhamos por isso.

Gutembergue Livramento

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Entrevista para revista especializada com o Mestre Gutembergue Livramento


1- Não é comum um praticante atingir um alto desempenho nas artes marciais, ou em outros esportes de alto rendimento, e ao mesmo tempo uma bela carreira acadêmica nos bancos das universidades como aluno e professor como o senhor tem feito. Portanto nos conte um pouco sobre esta sua história.                    
       
    Infelizmente esta separação é o que acontece com a maioria. Ambos os estudos fortalecem o caráter e educam o espírito e sempre os vi com o mesmo nível de importância e respeito por isso a dedicação. Nasci em 1968 em Itaetê, na chapada diamantina, interior da Bahia. A partir dos 10 anos de idade me interessei pela arte marcial chinesa com a leitura dos livros e revistas que chegavam a minhas mãos. No início da minha adolescência, nos anos 80, encontrei na cidade de Salvador meu primeiro mestre chinês que estava ministrando palestras na cidade mas morava em São Paulo. Treinei com Hu Shao Xiu por quase 20 anos onde estudei estilos provenientes do Shaolin onde obtive toda minha base marcial inicialmente. Ao mesmo tempo fui apresentado aos 15 anos às artes internas iniciando pelo Taiji quan estilos Wu, Yang e Chen buscando mestres competentes e pesquisando as artes internas. Conheci o mestre Zhang Xiu Lin na China nos anos 90 assim aprendi e aprofundei as artes internas chinesas a partir de então, como o Bagua zhang, Xingyi quan, Taiji quan e Dongbei quan sendo estudados conhecimentos das linhagens de Sha Guozheng, Li Ziming, Chen Fake, Yang Chenfu e Sun Lutang. Também nos anos 90 conheci o mestre Chen Xiaowang onde através de diversos cursos e contatos estudei e aprofundei o estilo Chen de Taiji quan assim como com outros mestres. Aprofundei-me no estudo do Qigong médico e marcial assim como na Filosofia e Medicina Chinesa com estudos dentro e fora dos meios acadêmicos universitários a partir dos 16 anos que busco aperfeiçoamento constante em fontes no ocidente e na China. Sou professor membro filiado ao centro de estudos de Qigong e Taiji quan de Shenzhen, Guangdong, China. Mantenho meus estudos e pesquisas com mais de 30 anos de prática sempre buscando conhecer e se possível treinar com os grandes mestres destas artes. Aprendi desde cedo que se você quer ser bom acompanhe os melhores, pois a mediocridade está cheia de companhias.
Faço parte da seleção brasileira desde os anos 90 com cerca de 12 títulos brasileiros, títulos e medalhas em campeonatos sul americanos, mundial e outros incluindo em eventos mundiais de campeonato e festivais chineses. Tudo isto rendeu mais de 80 medalhas de ouro e outro tanto somando prata e bronze. Sendo que no campeonato brasileiro de 2009 venci com 8 medalhas de ouro em um único evento. Agradeço profundamente a todos os meus mestres e professores e principalmente a minha família. Treinei alunos de nossa Escola em eventos nacionais e internacionais inclusive para a China, somados todos eles ganharam mais de 100 medalhas nestes eventos. É importante ser vitorioso e poder ensinar a outros como sê-lo. Fui presidente da federação de Kungfu Wushu do estado da Bahia por mais de 10 anos. E sempre contribui com a confederação treinando atletas, mesmo de outras escolas, auxiliando o crescimento da seleção brasileira nos estilos tradicionais. Nos estudos acadêmicos, além da Medicina Chinesa (estudado principalmente com professores da Europa, Brasil e China), tenho Mestrado em Medicina e Saúde Humana (Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública EBMSP), cursei Biologia (Universidade Federal da Bahia UFBA), me tornei Engenheiro (Universidade Católica do Salvador UCSal) e Fisioterapeuta (EBMSP) com Pós-graduação em Fisiologia (Universidade Gama Filho UGF), Especialização em Fitoterapia (UFBA), Especialização em Acupuntura e Eletroacupuntura, e Professor Universitário da graduação e mais tarde de pós-graduação desde 2001. Escrevo artigos científicos e não científicos na busca de colaborar com o entendimento e construção de novos paradigmas para a Medicina e a saúde humana também construo parcerias entre Universidade que presto serviços e Universidades chinesas. 
Com a percepção que poucos se interessam realmente em desenvolver as artes marciais com profundidade e o tempo relativamente mais escasso tenho dedicado o tempo ao meu treino e estudo desenvolvendo como ensino da arte somente o seu Qigong médico e pouquíssimos alunos de internos.


2-O senhor possui uma genealogia invejável e uma carreira brilhante dentro dos estilos internos chineses, especialmente no Brasil. Como o senhor vê a difusão e o ensino destes estilos em nosso país?

O Kung fu sempre fascinou muita gente em todo o mundo. Os estilos internos são uma paixão mais recente para muitos praticantes. Os estilos chamados de externos como ,por exemplo, o Shaolin, Hungar, Choy li fut e Wing Chun se tornaram famosos pelos filmes no cinema de Hong Kong que chegaram no ocidente com astros como Bruce Lee e depois com Jet Li, Yuan Biao, Sammo Hung, Jackie Chan, Donnie Yen, Michele Yeoh, Alexander Fu Sheng, dentre outros. Enquanto os estilos internos chegaram no Brasil nos anos 1970 voltados totalmente para os aspectos medicinais para o grande público com o Tai Ji Quan (Tai chi chuan) que até hoje ostenta esta característica errônea de prática somente para saúde e não uma arte marcial. O Taiji quan tem uma característica “San Xing” (3 estrelas); arte marcial, aspectos filosóficos e saúde. Os três aspectos juntos representam a arte do Taiji quan, não separados. O treino de Qigong impregnado no Taiji quan é que gera o aspecto medicinal, mas o Taiji quan é uma arte marcial que bem praticada gera boa saúde. O Qigong tem aspectos medicinais importantíssimos. Praticar Taiji quan como um Qigong não é um bom Qigong e, além disto, é um Taiji quan ruim. Conceitos inadequados como este levaram a um desenvolvimento equivocado no Brasil nas artes marciais internas, sendo o Taiji quan o primeiro e para alguns o único interno até hoje. As entidades que representam tais modalidades no Brasil, em outros países ocidentais não são diferentes, ainda conhecem muito pouco sobre as práticas internas das artes marciais chinesas. Temos alguns motivos para isso. Um deles é o fato de que os grandes mestres tradicionais destas artes geralmente não estão filiados a nenhuma destas entidades, na maioria das vezes por não acreditar no trabalho político e educacional desempenhado pela maioria destas. Temos entidades representativas no Brasil do “Kung fu” que se dedicam quase exclusivamente ao chamado wushu olímpico ou moderno descaracterizando totalmente as artes tradicionais em nosso país onde os grandes mestres dos estilos tradicionais estão se afastando cada vez mais e hoje tais mestres praticamente mantêm somente uma ligação política muito distante, mas sem nada influenciar o que acontece nos bastidores destes eventos. Muitos representantes destas entidades fazem um excelente trabalho em Wushu olímpico ou moderno mas, principalmente no que tange aos estilos internos tradicionais, quase nada e alguns nada conhecem ridicularizando estas artes quando tentam falar a respeito ou demonstrá-las sem nenhuma maestria. Há raríssimas exceções. O Wushu moderno é uma arte acrobática na maioria das vezes totalmente irreal para uma arte marcial. É bonito de ver mas sem efetividade marcial e muito pouca preocupação com a tradição do Kungfu Wushu tradicional e também muito lesivo para o corpo sendo que a maior parte dos atletas estão lesionados aos 25 anos. O Taiji quan moderno o que mais vale é sustentar a perna parada na altura da cabeça ou posições absurdas de entrelace das pernas ou lesivas para as articulações do que o controle do Qi e do movimento real preconizada pelos grandes mestres limitando esta arte aos jovens atletas que geralmente nunca aprenderam taiji quan “de verdade”. É um Ballet, bonito, mas vazio de essência para a maioria dos atletas. Há raríssimas exceções. As outras entidades no Brasil que valorizam os estilos tradicionais no Brasil contam ainda com pouco ou nenhum apoio político dentro dos governos, como bolsa atleta e outros incentivos, contando com apoio de professores brasileiros e mestres estrangeiros, principalmente chineses, para fortalecer seus eventos. Na maioria das vezes têm muito mais filiados que as primeiras sendo um dos motivos o estímulo para o tradicional e outro a facilidade de se cadastrar sem a exigência extrema de se comprovar suas linhagens. Com isto também há várias escolas com nível muito bom e outras sofríveis. Entidades que se dedicam ao Wushu moderno têm força política nas estruturas do governo como recebimento de bolsa atleta pelos atletas, ditas oficiais, não conhecem mais com profundidade os estilos tradicionais por falta de mestres competentes a frente dos trabalhos e as outras entidades, mesmo que com numerosos filiados e alguns mestres competentes, em sua maioria são estrangeiros, não gozam dos benefícios políticos do governo suficientes para dar a estas artes a projeção adequada. Em suma, estamos em grande crise do desenvolvimento dos estilos tradicionais chineses no Brasil. Aqueles que queiram praticar de forma profunda devem encontrar associações com mestres de boa linhagem e conhecimentos para direcionar seu caminho de desenvolvimento dentro de arte tão nobre. Poderá se aproximar também de workshops promovidos pelos mestres de boa linhagem e tentar mostrar grande interesse de ser aceito como aluno regular. Os mestres tradicionais valorizam o empenho, o foco, a boa atitude, o respeito e dedicação para com sua arte. A competência de um mestre não deve ser medida simplesmente pelo fato dele ser chinês ou não ser como muitos ocidentais, equivocadamente, ainda fazem sendo enganados por professores medíocres. É a mesma coisa de encontrar brasileiros na China e achar que todos eles são mestres de capoeira e Jiu jitsu brasileiro ou grandes jogadores de futebol. Encontrar um bom mestre é estar atento as suas habilidades em demonstrar a eficácia de sua arte, boa capacidade didática, outros conhecimentos afins de formação acadêmica geral, bom trabalho para a divulgação de sua arte, domínio teórico e prático da arte, boa linhagem de estudos e cultura geral.  
                                                                                             
3- O senhor foi discípulo do Mestre Zhang Xiu Lin, que sucedeu ninguém menos do que Sha Guo Zheng, uma lenda das artes marciais chinesas. Fale-nos sobre este grande Mestre.            

O mestre Zhang Xiulin, hoje com 86 anos, nasceu na China em 1927, filho do mestre Zhang Shen Wen perito no estilo Tan Tui e outros de origem shaolin que o ensinou desde a infância a partir de 1936. Além da brilhante carreira nas artes marciais se tornou um brilhante engenheiro, hoje engenheiro sênior na cidade de Jiu Jiang, além de profundo conhecedor da filosofia e história das artes marciais chinesas. Amigo e irmão de treino do mestre Kang Gewu  (também discípulo de Sha Guozheng e doutor em História sendo vice-presidente da Associação de Ba Gua zhang de Beijing) onde são representantes de uma classe de grandes intelectuais.  Seu pai, Zhang Shen Wen, deixou seu amigo, o mestre Sha Guo Zheng, como seu educador e mestre. Com Sha Guozheng, a partir de 1946, Zhang Xiulin iniciou seus estudos do Xing Yi quan, Ba Gua zhang, Qigong e Dong bei quan. Em 1947 iniciou o estudo e prática dos estilos de Taiji quan, Yang e Sun. Foi iniciado também na profunda teoria e filosofia que é pertinente a tais conhecimentos. O mestre Sha Guozheng também era profundo conhecedor da utilização de ervas chinesas e mobilizações terapêuticas no corpo que aprendera com seus mestres, Jiang Rongqiao, Wang Che Cheng e outros, o que também passou adiante para o mestre Zhang. Em 1950 Zhang Xiulin iniciou os estudos do estilo Chen de Taiji quan com o mestre Chen Fa Ke e após sua morte em 1957 continuou seus estudos de Chen Taiji com o mestre Hu Li Wu, que foi um famoso médico, primo e discípulo de Chen Fa Ke. Em 1963 aprofundou-se no estilo Sun com a mestra Sun Jian Yun, filha de Sun Lutang criador do estilo. Em 1973, em Beijing, iniciou o estudo do Ba Gua Zhang da linhagem de Liang Zheng Pu (discípulo direto de Dong Haichuan criador do Bagua zhang na segunda metade do século XIX), com o mestre Li Zi Ming, discípulo do mestre Liang Zheng Pu e amigo de Sha Guo Zheng. O mestre Sha Guozheng foi discípulo de Jian Rongqiao, que foi discípulo de Zhang Zhaodong, perito em Xing Yi quan e Ba guazhang, discípulo direto de Dong Haichuan. Com a linhagem do mestre Sun Luntang, que foi discípulo de Cheng Tinghua que por sua vez foi discípulo direto de Dong Haichuan, Zhang Xiulin estudou o estilo Cheng de Bagua zhang. Também o mestre Zhang Xiulin  estudou profundamente o conhecimento do Tui Shou do Tai ji quan e outros conhecimentos com o famoso mestre Wu Tu Nan. Hoje o mestre Zhang Xiulin é vice presidente do centro do método de treinamento e pesquisa da arte de Sha Guozheng, sendo o presidente o mestre Sha Junjie, perito nas artes internas e filho do mestre Sha. O mestre Sha Guozheng (1904-1992) era profundo conhecedor da arte de cura aprendida de seus diversos mestres. Curou muitas pessoas e nunca cobrou nada por isso. Em 1983 doou todas as suas fórmulas medicinais para o governo para benefício de todos.


4- O que os seus Mestres consideram mais importante no aprendizado das artes marciais chinesas?

Além de encontrar um bom mestre e ser um bom discípulo deve encontrar uma arte que seja compatível com suas necessidades ou afinidades com o potencial do seu corpo/mente e capacidades para que não haja frustração demasiada no processo de desenvolvimento da arte.

5- Existe certa polêmica sobre a divisão do kung fu chinês em “estilos internos” e “estilos externos”, apesar dessa separação didática ter sido criada por Mestres do gabarito de Sun Lutang. Muitos praticantes consideram uma tolice essa divisão, pois para eles o Qi não existe. O que o senhor diria a este respeito?

Mestres como Sun Lutang, Sha Guozheng, Jiang Rongqiao dentre outros são grandes estudiosos além de exímios praticantes. Normalmente a maioria dos mestres se dedica muito a prática e pouco aos estudos ou vice-versa. Estes não. Alguém precisa estudar pesquisar, comparar, intuir, pensar e classificar especialmente aqueles que têm grande bagagem e perícia para unir o estudo e a prática profundamente. É o caso destes grandes mestres. Desde livros conjecturados há 4000 A.C. que o conceito do Qi aparece na cultura chinesa e impregna os conceitos religiosos, do pensamento, da medicina e por último nos últimos 1500 anos, a partir de Da Mo, às artes marciais. O mero treinamento de ossos, músculos com aumento da resistência física foi acrescido de conceitos importantes de eficácia física e mental com a prática do domínio do Qi nas artes marciais. Então o Qi não é somente um conceito ligado à arte marcial mas sim a muitos aspectos da cultura chinesa, por isso aqueles que ignoram este conceito apresentam artes mais grosseiras onde se experimenta o trabalho bruto do desenvolvimento de músculos, ossos e tendões e pouco entende sobre a utilização e percepção desta arte. Os estilos chamados de externos (Wai Jia) são assim chamados pelas suas características de nutrir o interior a partir da força e dinâmica exterior. A origem da força está fora mesmo que trabalhem a intenção e vontade interna. Enquanto que os estilos internos (Nei Jia) nutrem o exterior a partir de forças desenvolvidas no interior. A origem da força é interna e o Qi é o principal fenômeno envolvido neste processo. Isto não quer dizer que nos estilos externos não haja Qi mas este é considerado como dinâmica de músculos, tendões com contração durante grande parte do tempo.
Os estilos internos têm sua grande fonte nutridora nos conhecimentos originados no templo de Wudang, próximo a cidade de Shiyan, e os estilos externos têm sua referência maior o templo de Shaolin, próximo a Dengfen nas montanhas Centrais da China (Zhong Shan). A China promoveu em 2004 e 2006 campeonatos mundiais de estilos tradicionais (internos e externos) em Dengfen com visita ao templo de shaolin e em 2008 e 2010 em Shiyan também com visita de aprofundamento do conhecimento ao templo de Wudang. Participei dos eventos trazendo medalhas para o Brasil e honrando meus mestres nos estilos tradicionais internos.

6- Dentro das artes marciais chinesas, que estilos podem ser considerados “internos”?

Taiji quan, Xingyi quan, Bagua zhang, Dongbei quan, Pi kua quan, Yi quan, Liu he ba fa. 

7- Qual a ligação entre artes marciais chinesas e o qigong?

Há 04 grandes escolas de Qigong de onde se originou todo o conhecimento atual. Apesar de o Qigong ter bases estruturais de cerca de 3.500 anos, somente foi estruturado as duas primeiras escolas,  a escola dos Religiosos e a dos Eruditos. A primeira, usada pelos budistas e taoístas, baseada na proposta de elevar a energia espiritual para níveis de evolução, a segunda, dos Eruditos, prestava-se à meditação para o desenvolvimento das capacidades intelectuais do pensamento e da virtude moral. Seguiu a escola dos Médicos, quando foram implementados exercícios físicos além da meditação para fortalecer os mecanismos de defesa orgânica restabelecendo e/ou mantendo a homeostase, Tu Gu Na Xin (Expelir o velho e assimilar o novo). O Qigong marcial nasce a partir da junção de vários argumentos das outras escolas, mas com o foco principal em fortalecer ossos, tendões e músculos. Teve grande influência dos exercícios de Bodhidharma (Da mo) no templo de Shaolin (530 D.C) chamados de Yi Jin Jing (Fortalecimento de músculos e tendões) e Si Sui Jing (Lavagem das medulas). Tanto nas artes marciais chinesas chamadas de Internas (Nei Dan) e externas (Wai Dan) o qigong está presente ou pelo menos deveria. Nei Dan significa Elixir interno e está relacionado com o desenvolvimento das energias internas para nutrir o todo, enquanto o Wai Dan, Elixir externo, é o desenvolvimento do exterior para nutrir o todo. Muitos pensam que o que determina uma arte ser interna é sua suavidade simplesmente, e daí alguns pensam que o Xing Yiquan tem características externas. Não é assim que se classifica a arte. O que determina é o desenvolvimento da origem da nutrição da Energia, Qi. Nas artes internas o desenvolvimento se dá a partir dos centros de força intrínsecos como os 3 Dan tian comandado pelo desenvolvimento da quietude para alcançar o domínio sobre o Qi. Nas artes externas o domínio se dá pelo desenvolvimento das estruturas externas como ossos, tendões e músculos. Com o movimento dos membros esta energia nutre todo o corpo. O comando mais sutil também só poderá se constituir a partir da quietude. A quietude (Xin Jing) se dá a partir do domínio sobre a mente emocional, Xin, e a nutrição da mente sábia, Yi.  A mente Xin é inquieta como um macaco (Yuan) enquanto a mente Yi é ritmada e organizada como o trote de um cavalo (Ma), daí a expressão; Xin Yuan Yi Ma.
O desenvolvimento da intenção, Yi nian, faz parte das características do qigong. Controlar a mente inquieta, Xin, cheia de desejos, mas sim, focar na intenção, Yi, correta. Treinar qigong não é somente fazer exercícios de meditação ou movimentos suaves para controle do Qi, mas principalmente é o desenvolvimento do Yi nian, do fluxo do Qi nutrindo músculos e tendões para o desenvolvimento principalmente nas artes externas, e da nutrição dos centros de energia, Dan Tian, principalmente nas artes internas.             

8) Qual a importância do treino com armas nos estilos internos chineses

Antigamente o objetivo principal do uso do treino com armas era capacitar o praticante a usá-la em guerra ou para se defender. Hoje mais não. Depois que o praticante chega a um nível intermediário do entendimento e domínio da estrutura da arte marcial interna que estuda, então seu mestre lhe oferece o treino com armas como por exemplo o uso principalmente do facão ou sabre (Dan Dao), espada (Jian), bastão (Gun), lança (Jiang), espada e facão duplos (Shuang Jian e Shuang dao), arma de Guang (Guangdao) em alguns estilos como o Chen Taiji, e mais recentemente, e menos clássico, o uso do leque (Shanzi).
O objetivo principal neste treinamento com armas é condicionar, em diversos estímulos diferentes, o domínio sobre o Qi. Cada tipo de arma exigirá do praticante diferente força, equilíbrio, foco, coordenação, suavidade, velocidade fazendo com que faça seu Qi fluir além do seu corpo, no caso, fluindo e interagindo a arma como extensão de seu próprio corpo, mente e espírito. Com isto, depois do treino com armas, mudará toda a percepção quando se pratica sem as armas ampliando as possibilidades no domínio do fluxo, armazenamento e controle do Qi.

9)O que é “Fa Jing”?

Fa Jing (ou Fa Jin) é a energia interna Qi (Lê-se Chi) bem elaborada pelos centros Dantian (Campo do Elixir ou Cinábrio) sendo expressa pelos músculos e tendões (Li) através de contrações destes com condução da atitude mental. O Fa Jing é o resultado de Qi mais Li daí nascendo a expressão “Só Qi é muito, só Li é pouco”. A maior parte dos praticantes usam o Fa Jing de forma inadequada pois o fazem basicamente utilizando o Li que é a força muscular. Para expressar o Fa Jing é necessária a instrução cuidadosa de um mestre de artes internas quando será ensinado o desenvolvimento do Qi nutrido e armazenado nos centros de energias,desenvolvimento da intenção (Yi Nian), liberação e nutrição do Qi para músculos e tendões, postura e respiração corretas para a expressão do Fa Jing e a preparação adequada das articulações, músculos e tendões. A utilização externa da contração muscular mesmo utilizando um bom Yi Nian não significa que está se aplicando o Fa Jing. É o que acontece com a maioria dos praticantes mesmo das artes internas e ainda em maior número das artes externas. Não significa que aplicando desta forma não surta efeito de machucar o adversário mas com certeza estes machucados serão mais externos enquanto um bom Fa Jing é menos dolorido externamente e o estrago interno, quando aplicado com esta intenção, poderá levar o adversário à morte.
Há estilos diferentes que utilizam o Jing também de forma diferente caracterizando-os por isso. Os estilos duros (Ying Shi) mantêm os músculos e tendões tensos durante a preparação do golpe assim como durante o próprio golpe visando proteger as articulações das lesões provocadas pelo impacto e força do golpe. Com isto as lesões causadas por estes impactos no adversário são demasiadamente externos. Tem-se exemplos estilos como os de garra de tigre Hung Gar, Hu Zhao. Há outra modalidade no uso do Jing que são os estilos duros-suaves (Ruan Ying Shi) que permanecem totalmente relaxados na preparação do golpe mas há contração no momento exato do golpe também visando proteção de articulações, tendões e ligamentos. São exemplos destes os estilos da serpente (She Quan), Garça Branca (Bai He Quan), Ba Gua Zhang e Xing Yi Quan. Nestes casos há lesões no adversário internas e externas a depender do domínio e intenção do praticante. Por último há aqueles estilos que usam o Jing como estilo suave (Ruan Shi) se caracteriza por estar relaxado na preparação e durante o golpe.  No golpe, antes de atingir a máxima extensão das articulações, como exemplo cotovelo e ombro para golpe de braço, recolhe o membro como se fosse um chicote (Bian Shi). Esta intenção do recolhimento faz com que haja contração músculo/tendão protegendo as articulações. Este tipo de movimento gera uma força dupla 2F em dois vetores que se somam. Uma força F do movimento direto e outro vetor de força F proveniente do movimento de recolhimento no instante final (Bian Shi). Com isto quando o praticante domina a técnica gera a partir de simples e relaxados movimentos forças espantosas com danos internos importantes. Estilos como o Taiji quan (Tai Chi Chuan) são representantes desta prática.
O relaxamento nos estilos suaves e nos duros-suaves visa recolher a força do Dan Tian e expressá-la na zona de impacto tendo os músculos e tendões como condutores. Os estilos suaves (Taiji quan e Liu He Ba Fa) e alguns estilos duros-suaves (Xing Yi quan, Dong bei quan e Ba gua zhang) são considerados estilos “internos” enquanto os estilos duros são considerados “externos”.

10) Alguns estilos, como o Xingyi Quan e o Yi Quan, enfatizam a meditação em pé Zhan Zhuang (conhecido como “Postura da Árvore”). Qual a importância desse exercício em especial?

Apesar de ter se popularizado como “postura da árvore” Zhan Zhuang significa “em pé como uma estaca” e contém dezenas de diferentes posturas estáticas. O Zhan Zhuang é um exercício antigo de controle e domínio do Qi quanto a seu desbloqueio, captação, circulação e armazenamento que são as 4 fases essenciais do domínio do Qi (Qigong). Ao contrário do que muitos desconhecedores das artes internas pregam o Zhan Zhuang é exercício fundamental para a prática e desenvolvimento das artes internas. É uma prática física, energética e meditativa. O dito chinês antigo reflete que “Para um homem comum viver é estar em movimento, para um verdadeiro mestre das artes internas para atingir a imortalidade é preciso parar”. Ser imortal não é não morrer nunca mas sim, se realinhar e estar conectado com as forças eternas (Yong) do Universo onde o Qi correto Zheng Qi é sua grande expressão. O Ideograma antigo de Qi é a junção de duas partes, em uma significa não e a outra significa fogo. Se a Energia está correta está sem fogo, pois o excesso ou a deficiência podem gerar estagnações ou estímulos inadequados que gerará como resultado calor.
Nas práticas internas chinesas é fundamental encontrar o movimento dentro da estaticidade e a estaticidade dentro do movimento. A estaticidade dentro do movimento é a percepção do eixo. O centro de massa do corpo deve coincidir com o Dantian inferior pouco abaixo do umbigo para que o movimento ou forma parada tenha a nutrição adequada deste centro de energia. Por isso a postura é a parte mais importante inicialmente na prática, pois a partir da postura se alinham as forças necessárias para o desenvolvimento correto, daí se segue o desenvolvimento da respiração e da atitude mental corretas. Como tive a oportunidade de ouvir de Chen Xiaowang e Zhang Xiulin, grandes mestres, “se você erra a respiração, mas acerta a postura é apenas um erro, no entanto se você erra a postura e acerta a respiração são dois erros já que não há respiração correta numa postura errada”. Com isso o praticante deve passar os primeiros anos treinando até que atinja a postura correta e o treinamento do Zhan Zhuang se faz totalmente fundamental no desenvolvimento das artes internas. Encontrar o movimento dentro da estaticidade, como no Zhang Zhuang, é perceber o fluxo contínuo do Qi (Yun Qi) enquanto se alinham as forças que são: Postura correta, respiração adequada e atitude mental condizente ao nível do trabalho. Deve acontecer na prática as 3 uniões internas e 3 uniões externas. A meditação nas 3 uniões externas são Punho/Tornozelo; Cotovelo/joelho e Ombro/Quadril. As 3  uniões internas são Espírito/Pensamento; Pensamento/Vontade e Vontade/Força. Assim nutridos pelo alinhamento da atitude mental, a postura e a respiração.

11)Sun Lutang foi enviado para um mosteiro taoísta por seu mestre para estudar I Ching e assim aperfeiçoar seus conhecimentos de Baguazhang. Onde está a importância do estudo filosófico para o aperfeiçoamento nas artes marciais?

Cheng Ting Hua foi mestre de Sun Lutang. Cheng foi o segundo aluno mais antigo de Dong Hai Chuan, criador do estilo interno Ba Guazhang. O mais antigo aluno foi Yin Fu seguindo diversos outros alunos famosos como Ma Wei Chi, Zhang Zhaodong, Liang Zheng Pu e muitos outros. Esta geração tinha uma perícia fenomenal mas precisavam urgentemente entender sua própria arte profundamente para que ganhasse estrutura e forma para sobreviver sendo passada ao longo do tempo. Dong Haichuan ensinou a alunos que eram peritos em alguma arte com bom nível de profundidade sendo que ensinava o Ba guazhang a partir da arte de domínio de cada um. Se não houvesse nada que amarrasse este conhecimento seria provável que este viesse a se perder ou mesmo criar vários estilos diferentes sem raiz. No entanto todas estas artes ensinadas de forma diferente para cada discípulo tina um mesmo princípio e raiz que é a filosofia do Ba gua englobada em livros antigos como o Yi Jing e outros livros taoistas do templo de Wudang. Como Sun Lutang era um estudioso muito inteligente foi incumbido de se aprofundar nesta estrutura filosófica e foi ao templo de Wudang por alguns anos para sua pesquisa que se tornaria o alicerce da arte do Ba guazhang.
Toda arte tem seu paradigma e os paradigmas nascem nutridos em grande parte pela filosofia. Como desempenhar uma arte plenamente se não conhece o seu fundamento de ação, pensamento e estrutura? Como diferenciá-la das outras artes e como ensiná-la profundamente.

12)Existe alguma ordem didática para se aprender os estilos internos?

Não há ordem didática pré-estabelecida, no entanto seguindo o estudo filosófico que se faz normalmente estudando a teoria da criação do Universo a partir do entendimento das teorias do Taiji Tu (Figura do Taiji), Bagua (oito trigramas) e do Wu Xing (cinco movimentos ou elementos) segundo muitos mestres é razoável se pensar em desenvolver o Taiji quan inicialmente, seguido do Bagua Zhang e Xing Yi quan, mas o mestre Sun Lutang fez o inverso e foi um grande mestre.     

13) O que o senhor nos falaria sobre o Tai Chi Chuan enquanto arte marcial de combate?

Nem precisaríamos separar esta pergunta se o Taiji quan (Tai Chi Chuan) fosse praticada de forma correta. O Taiji quan é uma arte marcial e como tal deve ser assim praticada. Como já expliquei é uma arte de domínio do Qi suave para o Fa jing. Estilo suave (Ruan Shi) com todas as especificações já comentadas. É uma poderosa arte marcial se for dominado o seu Fa Jing. Numa completa e eficiente arte marcial, o praticante deve desenvolver velocidade (Kuaiman), força (Liliang) e estratégia (Zhanlue). Se há velocidade pontos importantes podem ser atingidos, mas se não há força poderá não ser efetivo o ataque. Para fazer com que a velocidade e a força sejam efetivas num combate é importante desenvolver a estratégia correta. O Taiji quan é uma arte marcial completa e muito eficiente, mas se faz necessário um verdadeiro mestre da arte para levar o discípulo a desenvolvê-la como tal. Caso contrário se tornará uma dança e não uma arte marcial. Apesar de todos verem sua lentidão nas práticas de suas formas (Taolu), mas isso é para refinar o movimento, acalmar a mente/coração, e controlar o Qi. Com isto o Fa Jing é desenvolvido dentro de uma determinada estratégia de efetividade.

14)Existem diferenças conceituais importantes entre os três estilos internos mais conhecidos (Taijiquan, Xingyi Quan e Baguazhang). Quais seriam as principais?

Apesar de todas estas artes serem consideradas internas, no entanto possuem suas particularidades inclusive na concepção de seu Fa Jing como já discuti anteriormente.
Para que se possa tornar um bom praticante das artes internas é necessário conhecer a história de sua arte e daquelas “irmãs”, pois se o praticante não conhece bem o passado se perderá no presente e dificilmente poderá almejar um futuro brilhante dentro de sua arte. Também é fundamental conhecer os princípios e a teoria, pois uma arte completa é estruturada pelos seus princípios e de toda uma teoria clássica ou moderna que suporta seu desenvolvimento. Sem este conhecimento é impossível desenvolver uma arte marcial em níveis profundos. É necessário saber o que se faz profundamente. Muitos praticantes de Taiji quan nem sabem que existem outros estilos de Taiji quan que não aquele que pratica nem ao menos seus fundamentos. E outro tanto nem sabe o estilo que pratica. Isto é um absurdo para o desenvolvimento da arte. É importante conhecer o que faz os mestres da arte sendo da sua escola ou não. O que é bom é para ser observado e aprendido inclusive para fortalecer e diferenciar a sua arte daquelas outras. É importante conhecer os seus princípios e também aqueles que não são princípios da sua prática para conhecer todo um universo de práticas semelhantes e fortalecer a sua, discernindo o que é daquilo que não é então, podendo comparar e diferenciar.
Estas artes são combinações de princípios gerais das técnicas chinesas: Técnicas de derrubar o inimigo (Shuai Jiao), lutar livremente ou imobilizar as articulações (Chin Na), golpes buscando as cavidades (Dian Xue), golpear com punhos e pés (Ti Yi Da). Um exemplo comum é imobilizar articulações seguido de derrubar o adversário e atacar pontos específicos, sendo Chin na, Shuai jiao e Dian xué aplicados em sequência.

**No TAIJI QUAN meus mestres dizem que “no mais alto nível se atinge a simplicidade, mas a simplicidade é o mais difícil, isto é trabalho de uma vida”.
Dizem que se você pratica por trinta anos ou três meses será que é capaz de incorporar efetivamente “os oito trigramas nos braços e os cinco elementos sob seus pés”? Caso contrário ainda falta muito para a maestria.
No Taiji quan há principalmente cinco estilos tradicionais, a saber: Chen, Yang, Wu, Sun e Hao. Apesar das diferenças técnicas há princípios únicos entre estes.
Para o entendimento dos oito trigramas na mão é necessário praticar o “envolver o fio de seda” (Chan si jin). Se quiser entender o Chan si jin deve entender a figura do Taiji (os dois peixes se entrelaçando). A prática se desenvolve em três estágios:
1) Você deve mover as mãos dependentes de seu corpo. O movimento das mãos depende do movimento do corpo, do eixo e do centro. O movimento dos braços é em torno do centro como a Terra gira em torno do sol. Durante a execução do movimento prestar atenção em cada mão para a relação entre a palma (Yin) e o dorso (Yang). Quando a palma está voltada para cima a mão apresenta o trigrama Kun (Terra) e quando a palma está para baixo a mão mostra o trigrama Qian (Céu). Durante todo o movimento as mãos mostram os oito trigramas quando passam pelo círculo do Bagua do céu anterior (Xian Tian Ba Gua) semelhante ao ciclo mensal lunar saindo de nova para cheia e retornando.
2) Todas as partes do corpo devem mostrar revoluções como a Terra girando em torno de seu próprio eixo acrescentando ao movimento de sua órbita como no tópico anterior. Isto resultará um movimento em espiral. O Chan si jin, a partir de agora, será executado com ambas as mãos. Nesse movimento deverá se complementar e enquanto a mão direita mostrar o trigrama Tui (Lago) a esquerda mostrará Ken (Montanha). Uma das mãos estará crescendo para o Yin e a outra para o Yang. O máximo Yang (representado pelo céu Qian) o Qi se expressa na palma. O máximo Yin (representado pela terra Kun) o Qi penetra no Dantian inferior. Nas fases intermediárias o Yin crescendo dentro do Yang (representado pelo lago Tui) o Qi penetra na cintura e quando o Yang crescendo dentro do Yin (representado pela montanha Ken) o Qi penetra nas costas. O ciclo se equilibra Dantian/Palma e Cintura/Costas. Enquanto na esquerda o Qi está na Palma ou nas Costas na direita o Qi está no Dantian ou na cintura respectivamente. E vice-versa.
3) Durante as formas individuais deve-se visualizar e dominar os recursos para poder trocar esta energia com um parceiro.
Em suma durante o Taiji quan o movimento acontece a partir do centro e não há movimento dos braços sem que este seja induzido pelo centro. O movimento acontece em espiral continua onde há equilíbrio dinâmico entre os oito portões (Ba Men), alto e baixo; direita e esquerda; interior e exterior; frente e costas. Os aspectos Yin equilibram os aspectos Yang e vice-versa. O centro de massa do corpo deve coincidir com o Dantian inferior. Para isto a postura deverá ser correta. No erro de postura o Dantian não coincide com o centro de massa do corpo gerando falta de nutrição do centro em relação à extremidade ferindo o princípio Nei Dan (Elixir interno).
Quanto a postura no Taiji quan há princípios universais como o topo da cabeça voltado para o céu, o peito naturalmente recolhido e as costas naturalmente abertas facilitando o fluxo do Qi pelos canais Du mai e Ren mai, reconhecer e diferenciar palma cheia e palma vazia (Bao zhang e Xu zhang) assim como base cheia e base vazia (Bao bu e Xu bu), o movimento é contínuo sem começo e sem fim como no Taiji tu, a cintura livre com movimento consciente controlando o fluxo do Qi e movimentos articulares relaxados.

**Quanto ao BA GUA ZHANG é uma nobre arte além de muito efetiva em combate é uma das mais belas artes gerando saúde com movimentos agradáveis e vivos tornando uma prática possível de ser praticada por homens, mulheres, jovens e idosos sendo extremamente benéfica para todos. Penso que por suas características poderá ser tão popular ou ainda mais que o Taiji quan em algum tempo. O Bagua zhang (Palmas do Ba Gua) foi criado pelo grande mestre Dong Haichuan no século XIX a partir de técnicas de lutas taoista e a arte milenar de “andar em círculo”. Teve uma geração de discípulos com extrema maestria como Yin Fu, Cheng Tinghua, Liu Dekuan, Ma Weiqi, Zhang Zhaodong, Shi Jidong, Liang Zhenpu, Liu Fengchun, Song Shirong dentre outros. Dong Haichuan somente ensinava a quem já era perito em alguma arte marcial e ensinou um Bagua zhang com mesmos princípios mas diferente a cada discípulo gerando hoje os diferentes estilos. Dentre seus discípulos Yin Fu dominava o estilo “Luo Han”, Cheng Tinghua dominava “Luta chinesa”, Liu Dekuan era perito em “Shaolin quan e Lança”, Zhang Zhaodong em “Shaolin quan e Xingyi quan”, Shi Jidong em “Tan Tui”, etc. Mas foram os mestres da segunda e terceira geração discípulos destes anteriores que uniram o conhecimento profundo da filosofia do Ba Gua e dos 64 Hexagramas contidas no Yi Jing e outros livros taoistas tornando-a uma arte rebuscada tanto fisicamente quanto intelectualmente. Agradecemos a isto mestres de extrema habilidade marcial mas também de grande perspicácia e inteligência como Sun Luntang, Jian Rongqiao, Sha Guozheng, Li Ziming dentre outros.
Há diversos estilos de Bagua zhang sendo que em 1984 houve uma reunião em Beijing pelo estímulo do governo chinês com demonstração de grandes mestres e discípulos de dezenas de ramificações do Bagua zhang e inaugurando o museu Dong Haichuan. A partir daí houve um grande impulso ao desenvolvimento do Bagua zhang. A pesar de diversos estilos há princípios fundamentais que unem todos fazendo dela uma verdadeira arte. O andar em círculo com 8 transformações baseadas nos 8 trigramas do Ba Gua desenvolvendo as técnicas fundamentais do estilo conhecido e armazenado no Lao Ba Zhang “oito palmas velhas”, seguido da construção das 64 palmas que tem os 64 hexagramas do Yi Jing como estrutura do pensamento e desenvolvimento são técnicas que unem a grande maioria dos estilos. Hoje já existe em algumas escolas mais de 30 gerações e como sempre vale a máxima que quanto mais perto da fonte mais limpa é a água.
De uma forma geral há 13 posições de palmas “zhang” mais utilizadas são Yang zhang, Tiao zhang, Shu zhang, Pao zhang, Pi zhang, Liao zhang, Fu zhang, Zhuang zhang, Chuan zhang, Ya zhang, Tui zhang, Qei zhang e Tuo zhang. Assim como 9 posições de bases “bu” mais utilizadas são Kou bu, Bai bu, Ma bu, Gong bu, She Liu bu, Xu bu, Tin bu, Pu bu e Ao bu.
As caminhadas do Bagua zhang são bem características e em sua grande maioria em círculos. Isto promove junto a movimentos de braços e pernas bem organizados e coordenados uma arte marcial muito eficaz e uma arte extremamente benéfica para saúde. As mãos e pés como micro-sistemas representativos de terminações nervosas que impactam os órgão e tecidos do corpo assim como também os grandes meridianos de energia do corpo como aqueles dos 6 níveis como Tai Yang, Shao Yang, Yang Ming, Tai Yin, Jue Yin e Shao Yin são estimulados e reorganizados para que todo o corpo restitua ou mantenha sua plena capacidade antipatogênica, no  caso o Qi correto “Zheng Qi”.        
As forças “Jing” do Bagua zhang. No caso seu Fa Jing:
1)      Zong Heng Jing – a força reta e a força lateral. Integram-se dois tipos de trajetórias sendo a Zong – em linha reta para frente ou para trás e Heng – para a direita ou esquerda. Estas diferente forças/direções não devem ser utilizadas de forma isoladas mas sim, unidas.
2)      Ning Jing – a força de torção. Uma parte está fixa enquanto se move em torno para direita ou para a esquerda como em uma torção de uma toalha molhada. Está presente na maior parte dos movimentos do Bagua zhang.
3)      Yuan Hu Jing – a força arredondada. O arredondado presente no Bagua zhang está na forma do movimento e na forma do corpo. De duas maneiras: A primeira maneira é a forma e a posição do corpo como os pés escavados, as costas e escápulas arredondadas, joelhos flexionados, braços arredondados, os quadris bem posicionados sobre as coxas. A segunda maneira é a trajetória do movimento estimulado pela rotação deste, os braços se arredondam girando e movendo-se segundo uma rota arredondada como um movimento de roleta. Isto permite a força de estar contínua e correta.
4)      Zheng Guo Jing – pressionar para fora e comprimir para dentro. É mais uma força dissimulada que não é muito visível no exterior. Esta vem da intenção forte no movimento “Yi Nian”. Num movimento completo não há separação das forças, mas sim estas são utilizadas concomitantemente. Se alguém pressiona deve-se fazer a exata força contrária para anular a força do ataque nem mais nem menos.
5)      Zheng Jing – a força verdadeira. É a base de todas as outras forças anteriores. Se um praticante deseja chegar em alto nível precisa pesquisar esta força. Todo movimento deve conter a força verdadeira. Deve aprender a unir toda a força externa e interna para poder ser dirigida a um único ponto. É possível gerar força impressionante apenas com o movimento de um dedo impactando um ponto no adversário. Quando atingir este nível o praticante atingiu um alto desenvolvimento.
6)      Luo Xuan Jing – a força que gira e penetra. É como perfuração ou torção que se faz durante o movimento. Quando se andar e se movimenta sem esta intenção de girar e penetrar, a força nas técnicas do Bagua zhang não é grande. A união destas forças no movimento somadas à concentração se obtém uma força para o exterior geradas no interior que são penetrantes. Isto gera um vigor capaz de anular a força do oponente.                                        

**O XING YI QUAN “punhos do pensamento e da intenção” tem suas características dentro da filosofia do Yin e Yang, mas principalmente dos 5 movimentos/elementos (Expansão-madeira, Ascenção-fogo, Nutrição-terra, Retração-metal, Descendência-água). Conta-se que este estilo teve origem com o marechal Yue Fei há mil anos aproximadamente. Mas seu grande expoente foi Li Neng Ran nascido na província de Hebei no século XIX, na China. A maioria dos estilos do norte de Xingyi quan praticado em todo o mundo teve origem com este mestre. Os seus dois discípulos dele mais famosos foram Liu Qilan e Guo Yunshen mas também teve outros discípulos famosos como Song Shide, Song Shirong, Li Taihe, Bai Xiyuan, He Yongheng, Li Guangxiang e Che Yichai.
O mestre Guo Yunshen teve como discípulo de Xingyi quan que muito se destacaram: Li Kuiyuan, Wang Xiangzhai (Criador do Yi quan), e Sun Lutang que também estudou com Li Kuiyuan. Já o mestre Liu Qilan teve discípulos muito famosos por suas habilidades como Li Cunyi, Geng Jishan, Wang Fuyuan, Zhang Zhaodong, Liu Dianchen, Zhou Mingtai, Liu Dekuan (que aprendeu também o Bagua zhang e construiu os 64 movimentos em linha do Bagua zhang diferenciando dos outros em círculo). Observem que muitos destes praticantes do Xingyi quan também foram praticantes de Bagua zhang com Dong Hai ou seus discípulos diretos. Relembrando que o mestre Zhang Zhaodong, discípulo de Liu Qilan e Dong Haichuan,  ensinou sua arte do Xing Yiquan e Bagua zhang para Jiang Rongqiao que por sua vez ensinou a Sha Guozheng, sendo o principal mestre de Zhang Xiulin que é meu mestre. Este estilo foi chamado de Xing Yi Ba Gua zhang sendo um daqueles praticado em nossa escola. O estudo/prática do Xingyi quan inicia-se pelo domínio de meditar e fortalecer o espírito em pé chamado San Ti Shi seguido de dominar a caminhada fortalecendo a base e os 5 punhos ligados aos 5 elementos.
No Xingyi quan há método-princípio-xingyi em 3 fases. 1) Energia óbvia (método), Transformar Essência em Qi (princípio), Transformar os ossos (xingyi); 2) Energia escondida (método), Transformar Qi em Espírito (princípio), Transformar os tendões (xingyi); 3) Energia transformada (método), Transformar Espírito em Vazio (pricípio), Transformar as medulas (xingyi).
O San Ti Shi (Prática dos 3 corpos) no xingyi quan se refere a cabeça,mãos e pés. Pode-se dividir o entendimento em 3 partes; Raiz, área média e terminal como da seguinte forma: 1) Cintura (Dan tian), Coluna (Coração) e Cabeça (ponto Bai Hui); 2) Articulação do quadril, Joelhos e Pés; 3) Ombros, Cotovelos e Mãos. Todo praticante de Xingyi quan começa com a postura estática em pé San Ti Shi depois o treinamento das caminhadas com as formas fazendo sempre os passos corretos para a completa evolução. Todas as sequências de movimentos estão fundamentadas no San Ti Shi. Esta postura é o portão do caminho sendo a raiz para desenvolver o Xingyi quan.
Outro trabalho fundamental são os 5 punhos dos elementos (Wu Xing quan): Pi quan (metal), Zuan quan (água), Beng quan (madeira), Pao quan (fogo), Heng quan (terra). Este estudo está baseado nos ciclos de geração (Sheng) e de controle (Ke) para ataque e defesa. Segue a este treinamento a prática dos 12 animais que são fortes, mas pequenas formas de exercícios que serão utilizadas nas grandes formas daí por diante: Dragão, Tigre, Macaco, Cavalo, Crocodilo, Galo, Águia, Urso, Carpa, Serpente, Falcão e Andorinha.
Para atingir alto desempenho e evolução no Xingyi quan deve seguir inicialmente os 8 pontos vitais: O interior deve ser erguido, Os 3 corações devem se unir, As 3 intenções devem seguir uma a outra, Os 5 elementos devem fluir suavemente, As 4 chegadas devem se mover juntos, O coração deve estar tranquilo, Os 3 pontos devem estar em linha, Os olhos devem focar em um único ponto.
O interior deve ser erguido está relacionado com o levantamento dos esfíncteres e a língua elevada no céu da boca assim como o topo da cabeça sempre erguido. O Qi vai para o topo. Já os 3 corações são os pontos Bai hui, Lao gong e Yong quan. Estes 3 pontos são intencionados para o centro do corpo.
As 3 intenções são Qi (energia), Li (força) e Yi (intenção). Os 5 elementos fogo, terra, metal, água e madeira representados externamente no corpo como língua, boca, nariz, orelhas e olhos, internamente coração, baço-pâncreas, pulmão, rins e fígado. As 4 chegadas são: A língua é a chegada da carne, Os dentes são a chegada dos ossos, Os dedos de pés e mãos são chegadas do tecido conectivo e Os poros do corpo são chegadas dos vasos sanguíneos. Os 3 pontos que me referi são o nariz, o dorso da mão e do pé.        
Para contribuir com a perfeição dos 8 pontos vitais temos as 7 chaves do Xingyi quan que são: Afundamento da cintura, O relaxamento dos ombros, Recolhimento do peito, Pressionar, Levantar, Mover obliquamente ou em linha suavemente deve ser bem compreendido, Deve ser claramente separado o Erguer, perfurar e derrubar.
No início da prática do Xingyi quan deve se praticar de forma suave e devagar para relaxar e abrir os tecidos conectivos e ossos a fim de guiar o Qi e como consequência o poder. O praticante saindo do nível de iniciante depois de meses de intensa prática poderá impor mais força correta e velocidade isto o ajudará a desenvolver força interna para a aplicação marcial. Os métodos se alteraram no entendimento da força e velocidade encontrando o refinamento da aplicação do Fa Jing ao longo de cerca de 10 anos de estudos e prática contínua.
Todas estas 3 artes usam principalmente como armas de práticas o Bastão, o Fação (Sabre), a Espada e a Lança.
Espero não ter me alongado muito mas fica claro que há muito mais para se falar destes métodos de artes marciais do Taiji quan, Bagua zhang e Xingyi quan mas estes são alguns princípios iniciais que espero que o público interessado possa refletir e absorver. Para o desenvolvimento adequado se faz necessário a condução de professores e mestres competentes na compreensão profunda dos fundamentos da arte. Isto inclui desde a compreensão da história e filosofia até os fundamentos e princípios da arte marcial e do processo de cura pertinente a estas práticas internas. Uma prática errônea quanto a estrutura e princípios da arte fadará o praticante a não atingir os resultados adequados e frustrar a todos.
 
                                           
15) Quais conselhos daria ao praticante ou àqueles que desejam aprender os estilos internos chineses?

Se quiser desenvolver de verdade procure um professor ou mestre que domine sua filosofia, sua estrutura e sua marcialidade. Que tenha conhecimentos da arte como um todo e seja sustentado por uma boa linhagem. Aquele que foi um bom discípulo terá uma maior chance de ser um grande mestre. Muitas vezes estes conhecedores não estarão filiados a entidades de classe nem a clubes por não acreditar nestes, mas estão geralmente estruturados em Institutos ou Associações para o desenvolvimento do trabalho de divulgação. Apesar de poder encontrar bons professores filiados também. Cuidado também pois muitos “falsos professores” não se filiam a nenhuma organização por não terem nenhum registro de linhagem nem ter tido nenhum mestre responsável como são geralmente exigidos pelas associações, federações e ligas desportivas sérias as comprovações dos estudos e linhagem tradicional para seus filiados. 
De uma forma em geral é difícil no Brasil encontrar bons professores do verdadeiro Taiji quan e mais raro ainda das outras artes internas.
Obrigado pela oportunidade de falar sobre estas nobres artes que sempre busco honrar não somente meus mestres, mas toda a linhagem que construíram e mantiveram a muito custo estas brilhantes relíquias da cultura chinesa que interliga a arte marcial, a filosofia e a medicina.

               Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/5964326300479556